Achando que esta ameaça de primavera em Hamburgo já começava a ser demais, resolvi procurar o já saudoso inverno numa ilha chamada Förth. Localização: norte, já perto da Dinamarca.
Os autóctones quase que falam alemão, pese embora haja uma clara predominância de expressões de origem duvidosa como é o caso de um certo "moin, moin"* levemente cantado. Prova da estranheza deste idioma é o facto de ser capaz de fazer as pessoas sorrir quando se saúdam.
Sendo uma ilha perfeitamente explorável ao alugar-se uma bicicleta por 5€/dia, lá o fiz sentido na pele o que terão passado o Serpa Pinto e o Capelo e Ivens nas suas explorações africanas. A incerteza do que iria encontrar foi constante e sempre duvidei se estaria preparado para o que encontrasse. Mas a adrenalina é capaz de coisas extraordinárias!
Vencendo um forte e constante cheiro a excrementos de ovelha e de cavalo que controlam a ilha lá me lancei à exploração e descoberta de pequenas aldeias onde, entre cafés simpáticos e casas dignas de hobbits (telhados de palha e consideravelmente baixas), me deparei com o principal objecto deste relato: um café onde a palavra Kitsch não tem poder suficiente para o descrever.
Se bem que seja comum à maioria das pessoas que vivem à beira-mar uma certa tendência para se deixarem levar pelos demónios do kitsch (âncoras, representações de gaivotas, personagens algo parecidas com o Capitão Haddock a espreitarem pelos mais diversos sítios e os mais variados modelos de barcos por todo o lado), o sítio que vos vou descrever em seguida ultrapassa qualquer realidade ou a mais negra das fantasias.
Alte schule, ou Escola Velha na nossa boa língua latina, está numa encantadora aldeia de nome impronunciável onde as ruas são limpas e as pessoas sorridentes. Passando um pequeno portão onde há um aviso para ter cuidados com as mini-galinhas que podem fugir ou ser pisadas a qualquer instante, entra-se num jardim onde começam a surgir as primeiras réplicas de anjos barrocos. Nada que assuste um explorador do meu calibre, pensei.
Mas na realidade eu não estava minimamente preparado para o que o interior da casa me reservava.
Mesas com nomes tão inspiradores quanto Mesa do Coração, Alice no País das Maravilhas ou Canto dos Ursinhos de Peluche fazem parte de toda um conjunto de parafernália que termina gloriosamente em duas arcas frigoríficas cheias de doces capazes de matar o mais resistente corredor de maratona numa questão de segundos. As verdadeiras montanhas de natas a envolverem fatias de bolo de chocolate e a proposta de beber um vulgo latte machiato com xarope de canela e dupla camada de natas causaram-me algum enjoo, confesso. Mas não foi esse enjoo tão grande quanto o sentido ao deparar-me com a empregada. Uma mulher nos seus cinquenta com um vestido cor de rosa onde o corpete a segurar o passar do tempo e as meias brancas de renda se aliavam de forma a produzirem uma das mais grotescas imagens que já me foi concedida ver nestes dias da minha vida. Claro está que o facto de ela dizer "aqui está o seu prazer" ao servir à mesa estas bombas não ajudou a melhorar todo este cenário dantesco.
Mas o melhor ainda estaria para vir.
Quando paguei recebi em troca um coraçãozinho de feltro para que me recordasse eternamente daquele lugar.
Na realidade, não tinha sido necessário tanto trabalho. Com ou sem coraçãozinho sempre me irei recordar dele.
* Expressão equivalente ao mais comum e aceite Guten morgen
segunda-feira, 29 de abril de 2013
terça-feira, 23 de abril de 2013
Fumaças literárias
Neste Dia Mundial do Livro decido-me a escrever sobre uma das coisas que faz tempo acompanha as minhas leituras: o narguilé.
Parece piada. Não o é. A junção dos dois é para mim quase tão perfeita que às vezes consigo até marcar quantos terei fumado durante um livro. O Baudolino, que estou preste a terminar, vai com sete. A maioria das pessoas marca o tempo que demorou a ler um livro. Eu marco-o com narguilés.
Quase consigo precisar no tempo a primeira vez.
Foi na cave do épico 222 ali pelo Saldanha que fui confrontado pela primeira vez com tão deliciosa mistura. Os tempos eram outros. Eu nunca tinha pago irs. Apesar de ter começado a pagá-lo e das voltas que a vida me tem dado, muitas foram as vezes que voltei mesmo tendo a minha pequena colecção privada de narguilés. Se por um lado havia a simpatia do Nasser, por outro a natural decadência do lugar, ideal para longas horas de solidão foram factores determinantes para este meu regresso constante.
Outros lugares houve que me marcaram em especial: em Istambul rodeado de velhos que discutiam futebol (só podia ser futebol graças à forma apaixonada como berravam entre eles), em Urmia entre contadores de estórias e clientes admirados com tal presença de comitiva internacional ou em Cáceres numa antiga cave de vinhos remodelada ao gosto marroquino e com rumba a derramar-se pelos altifalantes.
Por Hamburgo, e apesar da grande comunidade turca aqui presente, confesso que nunca me senti particularmente entusiasmado a entrar em nenhum café de fumo. Todos eles têm ar de café mafioso russo: pouca luz, televisões gigantescas a transmitirem futebol, neons roxos do lado de fora e nomes tão atractivos como Shisha Palace ou Cocktail Shisha.
Contudo, no outro dia resolvi vencer todo este meu preconceito e lá me resolvi entrar num destes sítios a fim de vencer a hora que me restava de uma espera. De Baudolino na mão lá me encaminharam para uma mesa. Sofás confortáveis e uma música detestável. Num momento imaginei-me de volta a Magalluf rodeado de ingleses e alemães em plena adolescência a embriagarem-se como se não houvesse amanhã. Em meu redor havia uma mescla de clientes que ia desde jovens de véus a cobrirem-lhes por completo a cabeça até um grupo de Erasmus onde se destacava um espanhol que a cada dois minutos perguntava a um outro: Que dijo? Vaya mierda de idioma, el alemán!
Cumpri a minha hora com rigor espartano e um bom avanço baudolinistico. Não consegui esconder uma certa satisfação quando regressei ao ar livre e ao ruído agradável de comboios e carros junto à Estação Central (vulga Hauptbahnhof).
Hoje, quando terminar estas lides Ecoanas aqui por casa, marcarei possivelmente o oitavo.
Parece piada. Não o é. A junção dos dois é para mim quase tão perfeita que às vezes consigo até marcar quantos terei fumado durante um livro. O Baudolino, que estou preste a terminar, vai com sete. A maioria das pessoas marca o tempo que demorou a ler um livro. Eu marco-o com narguilés.
Quase consigo precisar no tempo a primeira vez.
Foi na cave do épico 222 ali pelo Saldanha que fui confrontado pela primeira vez com tão deliciosa mistura. Os tempos eram outros. Eu nunca tinha pago irs. Apesar de ter começado a pagá-lo e das voltas que a vida me tem dado, muitas foram as vezes que voltei mesmo tendo a minha pequena colecção privada de narguilés. Se por um lado havia a simpatia do Nasser, por outro a natural decadência do lugar, ideal para longas horas de solidão foram factores determinantes para este meu regresso constante.
Outros lugares houve que me marcaram em especial: em Istambul rodeado de velhos que discutiam futebol (só podia ser futebol graças à forma apaixonada como berravam entre eles), em Urmia entre contadores de estórias e clientes admirados com tal presença de comitiva internacional ou em Cáceres numa antiga cave de vinhos remodelada ao gosto marroquino e com rumba a derramar-se pelos altifalantes.
Por Hamburgo, e apesar da grande comunidade turca aqui presente, confesso que nunca me senti particularmente entusiasmado a entrar em nenhum café de fumo. Todos eles têm ar de café mafioso russo: pouca luz, televisões gigantescas a transmitirem futebol, neons roxos do lado de fora e nomes tão atractivos como Shisha Palace ou Cocktail Shisha.
Contudo, no outro dia resolvi vencer todo este meu preconceito e lá me resolvi entrar num destes sítios a fim de vencer a hora que me restava de uma espera. De Baudolino na mão lá me encaminharam para uma mesa. Sofás confortáveis e uma música detestável. Num momento imaginei-me de volta a Magalluf rodeado de ingleses e alemães em plena adolescência a embriagarem-se como se não houvesse amanhã. Em meu redor havia uma mescla de clientes que ia desde jovens de véus a cobrirem-lhes por completo a cabeça até um grupo de Erasmus onde se destacava um espanhol que a cada dois minutos perguntava a um outro: Que dijo? Vaya mierda de idioma, el alemán!
Cumpri a minha hora com rigor espartano e um bom avanço baudolinistico. Não consegui esconder uma certa satisfação quando regressei ao ar livre e ao ruído agradável de comboios e carros junto à Estação Central (vulga Hauptbahnhof).
Hoje, quando terminar estas lides Ecoanas aqui por casa, marcarei possivelmente o oitavo.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Abutrismo livreiro
Se há coisa que não consigo resistir é a uma banca de livros. Não há feira da ladra ou feira do livro usado onde não me debruce à procura daquela oportunidade única de encontrar o negócio do século fazendo-me valer do despreço alheio pela leitura. A típica posição de leve inclinação ou de joelhos à volta de caixas enchendo os dedos de um pó espesso ocupa já uma parte significativa da minha vida logo a seguir à de dormir e à de sentado a uma mesa a comer.
Talvez seja esta uma consequência directa dos anos de biblioteca ou dos ainda maior anos de certa penúria financeira ou de pura e simples cromice literária. E de que forma celebro quando alcanço um qualquer feito notável! Não consigo deixar de sorrir durante um dia inteiro ao conseguir a obra completa do William Carlos Williams por 2€ ou os melhores contos do Alejo Carpentier por 1€. Isso pode ser comprovado neste post.
Contudo, no outro dia fui acometido por uma certo e profundo sentimento de tristeza.
Ao caminhar pelas ruas de Copenhaga, o mais barato que consegui comprar foram livros. Um velho alfarrabista num espaço verdadeiramente apaixonante estava a vender ao desbarato o que restava das suas colecções antes de fechar a livraria por completo. Cada livro estava a ser vendido por menos de 1€. Um café em Copenhaga custa cerca de 4€.
O livreiro ostentava um certo ar de profunda melancolia enquanto via os abutres (entre os quais me incluí) à procura das melhores carcaças entre os restos mortais.
E Lisboa veio-me de novo à memória. Antes de deixar a cidade e vir para estas terra germânicas que albergam as minhas ossadas resolvi ir à Barateira fazer a minha despedida. Despedi-me sozinho e em choque com o seu fecho.
No outro dia e já por estas terras hamburguesas, andava por uma loja de segunda mão à procura de mesas de cabeceira aqui para casa quando me deparo com o facto de os livros serem gratuitos. Quem comprasse o que quer que fosse poderia levar os livros que quisesse sem que pagasse mais por isso.
Verdade que tenho que concordar com o Gabriel Zaid sobre o facto de haver livros a mais e leitores a menos, mas não consigo deixar de esconder uma certa tristeza ao ver este destino a tornar-se cada vez mais comum.
Num momento imaginei a amargura dos autores a verem os seus livros a serem tratados como lixo, o desespero de editores e livreiros ao verem que o que ganham não quase não é dinheiro e saber que chegada a época de grelhados ao ar livre, um livro é uma forma bem mais barata e eficaz de grelhar salsichas ou sardinhas.
Talvez seja esta uma consequência directa dos anos de biblioteca ou dos ainda maior anos de certa penúria financeira ou de pura e simples cromice literária. E de que forma celebro quando alcanço um qualquer feito notável! Não consigo deixar de sorrir durante um dia inteiro ao conseguir a obra completa do William Carlos Williams por 2€ ou os melhores contos do Alejo Carpentier por 1€. Isso pode ser comprovado neste post.
Contudo, no outro dia fui acometido por uma certo e profundo sentimento de tristeza.
Ao caminhar pelas ruas de Copenhaga, o mais barato que consegui comprar foram livros. Um velho alfarrabista num espaço verdadeiramente apaixonante estava a vender ao desbarato o que restava das suas colecções antes de fechar a livraria por completo. Cada livro estava a ser vendido por menos de 1€. Um café em Copenhaga custa cerca de 4€.
O livreiro ostentava um certo ar de profunda melancolia enquanto via os abutres (entre os quais me incluí) à procura das melhores carcaças entre os restos mortais.
E Lisboa veio-me de novo à memória. Antes de deixar a cidade e vir para estas terra germânicas que albergam as minhas ossadas resolvi ir à Barateira fazer a minha despedida. Despedi-me sozinho e em choque com o seu fecho.
No outro dia e já por estas terras hamburguesas, andava por uma loja de segunda mão à procura de mesas de cabeceira aqui para casa quando me deparo com o facto de os livros serem gratuitos. Quem comprasse o que quer que fosse poderia levar os livros que quisesse sem que pagasse mais por isso.
Verdade que tenho que concordar com o Gabriel Zaid sobre o facto de haver livros a mais e leitores a menos, mas não consigo deixar de esconder uma certa tristeza ao ver este destino a tornar-se cada vez mais comum.
Num momento imaginei a amargura dos autores a verem os seus livros a serem tratados como lixo, o desespero de editores e livreiros ao verem que o que ganham não quase não é dinheiro e saber que chegada a época de grelhados ao ar livre, um livro é uma forma bem mais barata e eficaz de grelhar salsichas ou sardinhas.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Da beleza poética das viagens de comboio
Um dos sítios onde o germânico hábito de atropelar pessoas mais se faz notar é nas estações de comboio. A forma como estes amigáveis e civilizados portentos da natureza se empurram e passam à frente a fim de conseguir garantir um bom lugar sentado é qualquer coisa de inexplicável. Muitos serão até capazes de ver pequenos laivos poéticos semelhantes aos do rebentar da bomba atómica.
O bonito e singelo episódio que aqui vos vou relatar passou-se na sexta-feira santa.
Sendo feriado antes de fim de semana alargado, creio que se encontravam reunidas todas as condições para um momento de violência eterna capaz de figurar nos anais da história como o célebre caso da antiga ponte das barcas na nossa Invicta cidade do Porto.
Levado na loucura da Estação Central de Hamburgo, lá consegui encontrar lugar sentado, perante o olhar meio invejoso de meia dúzia de cidadãos que, com certeza, bem me desejariam crucificar apenas para sentirem um pouco mais intensamente o espírito da época.
Depois de ter trocado de comboio em Uelzen, estação cuja ineficácia no escoamento de pessoas faz a Estação do Oriente parecer um paraíso na terra, consegui arranjar lugar junto a uma das portas que separam as carruagens. Com as malas a partilharem carinhos com a de todos os outros passageiros, eis que me deparo com um grupo de três simpáticos ogres que se sentaram mesmo à minha frente.
Dois homens de barrigas esféricas a fazerem inveja a qualquer grávida de trigémeos e uma outra criatura que suspeito que já tenha sido uma mulher.
Assim que se sentaram vai de sacar de uma bela garrafinha de plástico repleta de um belo e inebriante líquido. Depois de consumida a garrafa, cada qual se fez munir do seu six-pack de Astras de meio litro para acompanhar o resto da viagem. Gente prevenida é logo outra coisa, pensei. O tom de voz com que vociferavam faria corar um qualquer tuberculoso de Verdi. Daí a plenas demonstrações de simpatia para com os outros passageiros foi um passinho. A qualquer pessoa que esperasse que a porta se fechasse automaticamente, saíam uns piropos engraçados e intraduzíveis nesta nossa latina linguagem. Houve até um momento épico em que um deles ficou entalado na tal de porta automática quando a porta se fechou sobre o seu esférico a que alguns poderiam chamar de barriga.
Quando a viagem terminou pensei que talvez sido por causa destas e doutras que Cristo tinha decidido morrer numa sexta-feira.
Depois de uma Páscoa repleta de salsichas e schnapps lá regressei às aventuras de comboios e qual não é o meu espanto quando vejo o mesmo trio a subir o comboio e a sentar-se, sim, mesmo à minha frente.
Escusado será dizer que a viagem de regresso a Hamburgo foi um miminho e um abre-olhos para a realidade de que Cristo ressuscitou mas não quis ficar por cá.
O bonito e singelo episódio que aqui vos vou relatar passou-se na sexta-feira santa.
Sendo feriado antes de fim de semana alargado, creio que se encontravam reunidas todas as condições para um momento de violência eterna capaz de figurar nos anais da história como o célebre caso da antiga ponte das barcas na nossa Invicta cidade do Porto.
Levado na loucura da Estação Central de Hamburgo, lá consegui encontrar lugar sentado, perante o olhar meio invejoso de meia dúzia de cidadãos que, com certeza, bem me desejariam crucificar apenas para sentirem um pouco mais intensamente o espírito da época.
Depois de ter trocado de comboio em Uelzen, estação cuja ineficácia no escoamento de pessoas faz a Estação do Oriente parecer um paraíso na terra, consegui arranjar lugar junto a uma das portas que separam as carruagens. Com as malas a partilharem carinhos com a de todos os outros passageiros, eis que me deparo com um grupo de três simpáticos ogres que se sentaram mesmo à minha frente.
Dois homens de barrigas esféricas a fazerem inveja a qualquer grávida de trigémeos e uma outra criatura que suspeito que já tenha sido uma mulher.
Assim que se sentaram vai de sacar de uma bela garrafinha de plástico repleta de um belo e inebriante líquido. Depois de consumida a garrafa, cada qual se fez munir do seu six-pack de Astras de meio litro para acompanhar o resto da viagem. Gente prevenida é logo outra coisa, pensei. O tom de voz com que vociferavam faria corar um qualquer tuberculoso de Verdi. Daí a plenas demonstrações de simpatia para com os outros passageiros foi um passinho. A qualquer pessoa que esperasse que a porta se fechasse automaticamente, saíam uns piropos engraçados e intraduzíveis nesta nossa latina linguagem. Houve até um momento épico em que um deles ficou entalado na tal de porta automática quando a porta se fechou sobre o seu esférico a que alguns poderiam chamar de barriga.
Quando a viagem terminou pensei que talvez sido por causa destas e doutras que Cristo tinha decidido morrer numa sexta-feira.
Depois de uma Páscoa repleta de salsichas e schnapps lá regressei às aventuras de comboios e qual não é o meu espanto quando vejo o mesmo trio a subir o comboio e a sentar-se, sim, mesmo à minha frente.
Escusado será dizer que a viagem de regresso a Hamburgo foi um miminho e um abre-olhos para a realidade de que Cristo ressuscitou mas não quis ficar por cá.
terça-feira, 19 de março de 2013
Esta coisa estranha de viver
Joseph Conrad - The Hear of Darkness
Umberto Eco - The Name of the Rose
William Faulkner - The Bear
Jane Austen - Pride and Prejudice
Upton Sinclair - The Jungle
William Saroyan - Short Drive, Sweet Chariot
Stefan Zweig -Ungeduld des Herzens
Jostein Gaarder - Sofies Welt
Erich Kästner - Herz auf Taille
Max Frisch - Homo Faber
Erich Kästner - Gesang Zwischen den Stühlen
Ernest Hemingway - The Old Man and the Sea
John Steinbeck - Travels with Charley
Volkliederbuch für gemischten chor
Vikram Seth - The Golden Gate
Knut Hamsun - Nach Jahr und Tag
Der Hamburger Musikant
Peter Tschaikowski und Nadeshda von Meck - Geliebte Freundin
Jane Austen - Emma
Heinrich Heine - Atta Troll
Nicolai Gogol - Taras Bulba
Walt Whitman - A Choice of Whitman's Verse
Estes foram os livros que passaram a habitar a minha modesta casa depois de breve incursão numa feira da ladra onde o frio convidava a não tirar as mãos dos bolsos. Como é costume por estas bandas, esta feira da ladra não tinha o encanto daquela outra que foi habitando as minhas terças e sábados. Não havia velhotas a gritarem um eurooo! Tudo a um euro! Não havia rapazes de aspecto duvidoso a vender os furtos da noite anterior. Não havia batalhão da polícia de intervenção. Não havia turistas de máquinas fotográficas em punho e pescoços vermelhuscos. Não havia cheiro a bifanas nem a simpática senhora que percorre a feira incontáveis vezes com um carrinho cheio de minis. Não havia música pimba a rivalizar com fado.
Havia, sim, bancas organizadas num espaço multicultural e pessoas com ar cinzento a vender o que restava do resto das suas vidas. Batendo com os pés para tirar os restos de neve que insistiam em habitar as minhas botas esperando um convite maroto para entrar, ouvi o que me pareceu ser mentira: Oh menino, pode levar tudo o que quiser que não quero ir carregado para casa.
Desculpe?
É tudo grátis. Leve o que quiser.
Como sou um menino bem educado e obediente, assim o fiz. E por este pequeno manancial de livros paguei... zero.
Em seguida entrei numa loja indiana. Bem, como explicar? Não era bem uma loja. Um mundo, diria. Lá dentro era impossível descortinar a cor das paredes pois havia de tudo por todo o lado. Roupas. Incensos. Instrumentos musicais. Toda uma parafernália tirada de um qualquer filme de bollywood. No ar ecoava uma versão indiana da lambada. Por trás de um conjunto de amuletos num balcão rodeado pelo fumo de diversos incensos que teimavam em queimar incessantemente, estava o dono. Com um sorriso perguntou se era de Hamburgo. Se tinha filhos. Se conhecia o Ronaldo pessoalmente.
Perante tamanho cenário claro está que fui de me apaixonar por uma marioneta que parecia estar ali ainda antes da abertura da loja.
Preço? Setenta.
Hmmm, desculpe. É um pouco cara.
Quanto quer pagar por ela?
Quarenta?
Amigo, disse-me. Ela vale cinquenta. O amigo paga quarenta agora e depois, quando contar estórias com ela e começar a ganhar bom dinheiro vem cá e dá-me os dez euros que faltam. Ou então, ainda melhor, dá para as crianças de Calcutá. Num papel rabiscou http://calcutta.de/ e despediu-se.
Estando à porta da loja a falar com um alemão que estava interessado nisto das estórias e que me deu um postal com um poema que comprou sabe Deus onde, eis que vejo o dono a correr porta fora ao meu encontro.
Amigo, amigo. Esqueci-me de te dar amuleto para que tenhas boa sorte e inspiração nas estórias. E da mesma maneira que saiu, entrou.
Troquei contactos com o rapazito alemão e lá me fui refugiar num café a fim de restabelecer a circulação sanguínea. Na boca tinha um sorriso.
Umberto Eco - The Name of the Rose
William Faulkner - The Bear
Jane Austen - Pride and Prejudice
Upton Sinclair - The Jungle
William Saroyan - Short Drive, Sweet Chariot
Stefan Zweig -Ungeduld des Herzens
Jostein Gaarder - Sofies Welt
Erich Kästner - Herz auf Taille
Max Frisch - Homo Faber
Erich Kästner - Gesang Zwischen den Stühlen
Ernest Hemingway - The Old Man and the Sea
John Steinbeck - Travels with Charley
Volkliederbuch für gemischten chor
Vikram Seth - The Golden Gate
Knut Hamsun - Nach Jahr und Tag
Der Hamburger Musikant
Peter Tschaikowski und Nadeshda von Meck - Geliebte Freundin
Jane Austen - Emma
Heinrich Heine - Atta Troll
Nicolai Gogol - Taras Bulba
Walt Whitman - A Choice of Whitman's Verse
Estes foram os livros que passaram a habitar a minha modesta casa depois de breve incursão numa feira da ladra onde o frio convidava a não tirar as mãos dos bolsos. Como é costume por estas bandas, esta feira da ladra não tinha o encanto daquela outra que foi habitando as minhas terças e sábados. Não havia velhotas a gritarem um eurooo! Tudo a um euro! Não havia rapazes de aspecto duvidoso a vender os furtos da noite anterior. Não havia batalhão da polícia de intervenção. Não havia turistas de máquinas fotográficas em punho e pescoços vermelhuscos. Não havia cheiro a bifanas nem a simpática senhora que percorre a feira incontáveis vezes com um carrinho cheio de minis. Não havia música pimba a rivalizar com fado.
Havia, sim, bancas organizadas num espaço multicultural e pessoas com ar cinzento a vender o que restava do resto das suas vidas. Batendo com os pés para tirar os restos de neve que insistiam em habitar as minhas botas esperando um convite maroto para entrar, ouvi o que me pareceu ser mentira: Oh menino, pode levar tudo o que quiser que não quero ir carregado para casa.
Desculpe?
É tudo grátis. Leve o que quiser.
Como sou um menino bem educado e obediente, assim o fiz. E por este pequeno manancial de livros paguei... zero.
Em seguida entrei numa loja indiana. Bem, como explicar? Não era bem uma loja. Um mundo, diria. Lá dentro era impossível descortinar a cor das paredes pois havia de tudo por todo o lado. Roupas. Incensos. Instrumentos musicais. Toda uma parafernália tirada de um qualquer filme de bollywood. No ar ecoava uma versão indiana da lambada. Por trás de um conjunto de amuletos num balcão rodeado pelo fumo de diversos incensos que teimavam em queimar incessantemente, estava o dono. Com um sorriso perguntou se era de Hamburgo. Se tinha filhos. Se conhecia o Ronaldo pessoalmente.
Perante tamanho cenário claro está que fui de me apaixonar por uma marioneta que parecia estar ali ainda antes da abertura da loja.
Preço? Setenta.
Hmmm, desculpe. É um pouco cara.
Quanto quer pagar por ela?
Quarenta?
Amigo, disse-me. Ela vale cinquenta. O amigo paga quarenta agora e depois, quando contar estórias com ela e começar a ganhar bom dinheiro vem cá e dá-me os dez euros que faltam. Ou então, ainda melhor, dá para as crianças de Calcutá. Num papel rabiscou http://calcutta.de/ e despediu-se.
Estando à porta da loja a falar com um alemão que estava interessado nisto das estórias e que me deu um postal com um poema que comprou sabe Deus onde, eis que vejo o dono a correr porta fora ao meu encontro.
Amigo, amigo. Esqueci-me de te dar amuleto para que tenhas boa sorte e inspiração nas estórias. E da mesma maneira que saiu, entrou.
Troquei contactos com o rapazito alemão e lá me fui refugiar num café a fim de restabelecer a circulação sanguínea. Na boca tinha um sorriso.
sábado, 2 de março de 2013
Politeness
Ao contrário do que tenho feito, desta feita irei descrever uma coisa boa e uma coisa menos agradável em relação a este povo que me tem albergado nestes quase três meses.
Comecemos então pela menos agradável.
Quando se fala na Alemanha e nos seus habitantes é quase inevitável referirmos as capacidades civilizacionais dos mesmos.
Várias foram as vezes que ouvi coisas como "isto na Europa não é assim" quando algo de estranho se passava em filas de supermercado ou na entrada do autocarro.
Nada mais falso.
Apesar dos sorrisos e dos inevitáveis desejos de "tenha um bom dia" com que nos despacham das lojas, há uma pequena coisa que me tem vindo a criar alguma comichão: o segurar da porta quando vem alguém atrás. Os alemães pura e simplesmente não o fazem.
Pode até vir uma velhota de bengala e sacos das compras e ninguém se digna a segurar a porta por um momento que seja para a deixar passar.
Têm estes amigos uma forte convicção em passar à frente de quem quer que seja como se disso dependesse a sua própria vida.
Estando eu numa prova de vinhos promovida por uma das associações portuguesas de Hamburgo, vi-me verdadeiramente atropelado por uma horda de pessoas que não hesitaram em passar-me à frente para conseguir mais um copo de tinto.
Depois de ter manifestado uma semi-revolta, eis que me surge um responsável alemão que me sorri bondosamente dizendo num português de forte sotaque: os portugueses e as bichas... Sorri e resolvi então pisar dois alemães, mandar uma gentil cotovelada numa velhota atrevida e comportar-me que nem o Pepe em alta competição e zás, ninguém protesta, achando o meu comportamento perfeitamente normal.
Seguindo os ensinamentos do Ghandi, eis que decidi começar a segurar portas e a portar-me de forma civilizada. A verdade é que não consigo encontrar palavras para descrever a forma incrédula como alguns me fitam e sussurram um tímido: danke schon. Outros olham-me apenas em pleno estado de choque.
Sinto que uma nova missão educativa se apresenta diante de mim. Depois de milhares de portugueses a tentarem espalhar a fé cristã a todo o custo por todo o mundo, tentarei agora ensinar os alemães de que é possível segurar uma porta ou até mesmo esperar tranquilamente pela sua vez.
Vamos então à coisa boa do dia:
A cerveja. A cerveja é boa.
Comecemos então pela menos agradável.
Quando se fala na Alemanha e nos seus habitantes é quase inevitável referirmos as capacidades civilizacionais dos mesmos.
Várias foram as vezes que ouvi coisas como "isto na Europa não é assim" quando algo de estranho se passava em filas de supermercado ou na entrada do autocarro.
Nada mais falso.
Apesar dos sorrisos e dos inevitáveis desejos de "tenha um bom dia" com que nos despacham das lojas, há uma pequena coisa que me tem vindo a criar alguma comichão: o segurar da porta quando vem alguém atrás. Os alemães pura e simplesmente não o fazem.
Pode até vir uma velhota de bengala e sacos das compras e ninguém se digna a segurar a porta por um momento que seja para a deixar passar.
Têm estes amigos uma forte convicção em passar à frente de quem quer que seja como se disso dependesse a sua própria vida.
Estando eu numa prova de vinhos promovida por uma das associações portuguesas de Hamburgo, vi-me verdadeiramente atropelado por uma horda de pessoas que não hesitaram em passar-me à frente para conseguir mais um copo de tinto.
Depois de ter manifestado uma semi-revolta, eis que me surge um responsável alemão que me sorri bondosamente dizendo num português de forte sotaque: os portugueses e as bichas... Sorri e resolvi então pisar dois alemães, mandar uma gentil cotovelada numa velhota atrevida e comportar-me que nem o Pepe em alta competição e zás, ninguém protesta, achando o meu comportamento perfeitamente normal.
Seguindo os ensinamentos do Ghandi, eis que decidi começar a segurar portas e a portar-me de forma civilizada. A verdade é que não consigo encontrar palavras para descrever a forma incrédula como alguns me fitam e sussurram um tímido: danke schon. Outros olham-me apenas em pleno estado de choque.
Sinto que uma nova missão educativa se apresenta diante de mim. Depois de milhares de portugueses a tentarem espalhar a fé cristã a todo o custo por todo o mundo, tentarei agora ensinar os alemães de que é possível segurar uma porta ou até mesmo esperar tranquilamente pela sua vez.
Vamos então à coisa boa do dia:
A cerveja. A cerveja é boa.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Obituário?
É possível escrever um obituário a
alguém que ainda está vivo?
No meu início de adolescência vi-me a
trocar de escola por mero capricho latinista. Como sempre acontece
nessa tenebrosa fase da nossa vida há lágrimas e abraços, beijos
fugazes e promessas de amizade eterna, como se mudar de escola em
Santarém fosse aventura apenas comparável com a segunda expedição
do Bartolomeu Dias em torno do Bojador.
Claro está que assim aconteceu com o
meu melhor amigo da altura. Mas ficava a promessa de continuarmos a
ver-nos, até porque ele morava a pouco mais de 500 metros de
distância e mesmo em frente ao campo de futebol onde nas tardes de
sábado eu demonstrava veementemente que a minha carreira desportiva
bem se poderia resumir a coleccionar cromos da Panini.
As noites de sexta começaram a ser
passadas em conjunto para partilharmos as aventuras da semana.
Invariavelmente eu ia até casa dele pois sempre tive culito
inquieto. Mas as diferenças entre nós começaram a se agudizar. Eu
a achar que era de bom tom ler Nietzsche aos quinze anos e ele a
devorar jogos de computador (mais tarde viria a falhar redondamente o
primeiro ano de informática na Nova, mas passando com clara
distinção no SIMS e no FIFA) como se não houvesse amanhã.
As noites de partilha típicas da
adolescência sobre os atributos sexuais de todas as raparigas da
nossa turma e sobre as técnicas cada vez mais falíveis de as
conquistar foram sendo substituídas por demonstrações de perícia
em torno de um ecrã de computador onde o meu espaço ia sendo cada
vez menor.
E assim foi que o meu foco de atenção
se foi virando cada vez mais para a mãe dele.
Num pequeno escritório forrado a
livros onde a ténue luz de um candeeiro se parecia sempre ir
afogando entre as nuvens dos constantes cigarros lá estava ela a
ler. Sempre. Pouco a pouco fomos começando a conversar sobre livros.
De como era precipitado ler Nietzsche tão cedo, de como Kafka era
fascinante, de como às vezes a personalidade dos autores nada tinha
que ver com a qualidade do que escreviam e de como era possível
desassociar ambos.
Sem surpresa o tempo que me era
parentalmente reservado para as saídas de sexta começou a ser
passado naquele escritório entre conversas quase sempre
intermináveis. O meu amigo, aborrecido de morte, nem se dignava a
aparecer, comentando apenas à saída que estava em terceiro no
campeonato mas com cinco jogos a menos ou que tinha passado dois
níveis num qualquer jogo que tanto naquela altura como nesta em que
escrevo tinha um qualquer nome para mim impronunciável.
Cada vez com menos em comum e com uma
namorada que me achava um louco perigoso ao qual o destino tinha
reservado os prazeres de todos os males da humanidade fomo-nos
afastando cada vez mais. Eu ganhei o gosto de ler nos bares e de
sonhar acordado em frases que poderiam ser memoráveis e ele
continuou a vencer níveis na mais diversa gama de jogos. Foi
naturalmente que surgiu o dia em que deixámos de sentir necessidade
de falar um com o outro.
Com esta falta de necessidade morreu
também a figura da mãe dele, ficando apenas na memória o fumo em
torno dos livros que hoje repito enquanto sinto os meus olhos minguar
em torno de um pequeno vício maior do que todos os outros.
Talvez um dia, quando tenha filhos um
deles tenha um amigo que virá falar comigo nas sextas à noite sob a
luz de um candeeiro. Mas apenas talvez.
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