Se durante muitos anos Lisboa teve o Senhor do Adeus, é com algum orgulho que anuncio aos meus queridos concidadãos que agora temos o homem do Olá.
De origem alemã, Stefan apareceu aqui pelo hostel há coisa de um mês sem reserva. Como eu não estava, resolveu sentar-se na sala, ligar-se ao meu wifi e fazer uma reserva por dois dias. Quando cheguei e me deparei com um primeiro "olá" pronunciado numa mistura perfeita entre o alemão e o espanhol, pensei cá para comigo que isto prometia.
Passados os dois dias pediu-me para ficar mais um, pois estava à espera de um mail de uma amiga que vivia em Coimbra. E assim foi no dia seguinte. E no outro. E a seguir. E assim se passou já um mês.
Detentor de um riso histérico capaz de acordar o mais profundo dos mortos do Alto de São João, o Stefan é capaz de dizer Olá sempre que vê alguém, mesmo que seja a 5ª vez que o vê no espaço de 12 minutos, tornando-o num rival à maneira do Senhor do Adeus.
Além do mais o Holaaaaaa que produz é estridente e acompanhado de um sorriso de olhar vesgo de um antropólogo que se sente feliz perante a descoberta de uma nova tribo canibal da Papua Nova-Guiné.
Como qualquer hóspede que fica mais do que o tempo normal, o homem do Olá já está a adquirir hábitos e manhas capazes de me tirar do sério.
Entre o lavar a sua própria roupa na casa de banho com o gel que disponibilizo para as mãos e que em seguida fermenta no quarto produzindo um cheiro nojento (nojento, ai que belo eufemismo), passando pelo facto de se levantar 3 minutos antes do fim do pequeno-almoço ou a forma douta como se apropria de grande parte dos hóspedes que vão surgindo por aqui e lhes vai explicando coisas sobre esta nossa Lisboa embora quase nunca saia do hostel.
Pois hoje de manhã resolvi antecipar-me e tirar o pequeno-almoço quatro minutos antes da hora.
Um minuto depois ouço os passos apressados do alemão a correr corredor abaixo apenas para descobrir que já não havia pequeno-almoço.
Chamem-me mesquinho, mas hoje o Olá perdeu o tom estridente e os olhos parte do brilho de antropólogo como quem acaba de descobrir que só é giro estar numa tribo de canibais até ao momento em que eles nos comem um pé ao lanche.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
Perdidos e achados
De todos os momentos que marcam a rotina aqui do albergue há um que aprecio particularmente: quando toda a gente abandona a casa rumo à cidade e um silêncio sepulcral apenas quebrado pelo queda das bátegas de humidade no fundo do poço se faz imperar.
É claro que também se tem que contar com a música do senhor da cave que faz tremer o chão e os carros que são apitados violentamente, revelando verdadeiro desespero perante o olhar curioso da brigada dos bêbedos do Alves que comenta de forma serena se o carro pertencerá a alguém a almoçar no referido estabelecimento.
Tirando isto, impera um silêncio sepulcral.
Preparo um chá. Preparo o narguilé. Preparo um livro. Preparo o cadeirão.
Sento-me e desfruto.
Se perfeição houvesse, esta seria a sua imagem de marca.
Pois estava eu num alto patamar da perfeição a passar os meus olhos sobre o mais recente trabalho do Murakami e a experimentar um delicioso Alfakher turco sem tabaco quando alguém toca à porta.
Quem raios se atreve a violar este meu sagrado momento?, pensei eu.
Abro a porta. Um jovem com cabelo a imitar a vida do Cristo e um olho para cada lado.
Oi, tenho uma reserva para este hostal mesmo. Johnies Place. É.
Olho de soslaio como quem já pressente um cheirinho a esturro. Ideia nenhuma de receber pessoas naquele dia. Mesmo assim, deixei-me levar pelo mapa de marcações. Nada. Verifiquei nos sites de reservas. Nada.
Lamento, disse. Não tenho nenhuma reserva com o teu nome.
Ah, mas se tenho até papel.
Quando mo mostrou descobri que tinha feito a reserva para o dia correcto. O mês é que não.
Evitei fazer piadas como: Ah, foi o mês ao lado, a fim de evitar comparações com a vesguice do rapaz.
Depois de ter ido conhecer esta bela e única Lisboa onde nunca se sabe quando é que um prédio nos pode cair em cima, eis que regressa com ar meio estupefacto.
Você acredita que perdi a minha carteira?
Acredito, sim. Que tinhas lá dentro?
Ah, tudo. Dinheiro, documento, identificação, contactos, tudo.
Depois de lhe ter indicado a localização precisa e exacta da polícia turística, lá o despachei com um alemão chato como a porra.
Quando regressou tinha um sorriso estampado na cara dizendo que no preciso momento em que estava a apresentar queixa lhe apareceu um polícia com a carteira. Oba, qui bommm. Nossa!
De sorriso estampado, arrumou as suas coisas e partiu rumo a Aveiro.
Ou isso achava eu.
Passado uma hora, toca de novo à porta.
Oi, esqueci minha pasta com os bilhetes... Sorte que só vou ficar 10 dias na Europa e a cabeça 'tar grudada no corpo.
Se alguém encontrar um corpo de um jovem brasileiro perdido numa qualquer cidade dessa Europa, por favor enviem de volta ao seu país a pagar no destino.
É claro que também se tem que contar com a música do senhor da cave que faz tremer o chão e os carros que são apitados violentamente, revelando verdadeiro desespero perante o olhar curioso da brigada dos bêbedos do Alves que comenta de forma serena se o carro pertencerá a alguém a almoçar no referido estabelecimento.
Tirando isto, impera um silêncio sepulcral.
Preparo um chá. Preparo o narguilé. Preparo um livro. Preparo o cadeirão.
Sento-me e desfruto.
Se perfeição houvesse, esta seria a sua imagem de marca.
Pois estava eu num alto patamar da perfeição a passar os meus olhos sobre o mais recente trabalho do Murakami e a experimentar um delicioso Alfakher turco sem tabaco quando alguém toca à porta.
Quem raios se atreve a violar este meu sagrado momento?, pensei eu.
Abro a porta. Um jovem com cabelo a imitar a vida do Cristo e um olho para cada lado.
Oi, tenho uma reserva para este hostal mesmo. Johnies Place. É.
Olho de soslaio como quem já pressente um cheirinho a esturro. Ideia nenhuma de receber pessoas naquele dia. Mesmo assim, deixei-me levar pelo mapa de marcações. Nada. Verifiquei nos sites de reservas. Nada.
Lamento, disse. Não tenho nenhuma reserva com o teu nome.
Ah, mas se tenho até papel.
Quando mo mostrou descobri que tinha feito a reserva para o dia correcto. O mês é que não.
Evitei fazer piadas como: Ah, foi o mês ao lado, a fim de evitar comparações com a vesguice do rapaz.
Depois de ter ido conhecer esta bela e única Lisboa onde nunca se sabe quando é que um prédio nos pode cair em cima, eis que regressa com ar meio estupefacto.
Você acredita que perdi a minha carteira?
Acredito, sim. Que tinhas lá dentro?
Ah, tudo. Dinheiro, documento, identificação, contactos, tudo.
Depois de lhe ter indicado a localização precisa e exacta da polícia turística, lá o despachei com um alemão chato como a porra.
Quando regressou tinha um sorriso estampado na cara dizendo que no preciso momento em que estava a apresentar queixa lhe apareceu um polícia com a carteira. Oba, qui bommm. Nossa!
De sorriso estampado, arrumou as suas coisas e partiu rumo a Aveiro.
Ou isso achava eu.
Passado uma hora, toca de novo à porta.
Oi, esqueci minha pasta com os bilhetes... Sorte que só vou ficar 10 dias na Europa e a cabeça 'tar grudada no corpo.
Se alguém encontrar um corpo de um jovem brasileiro perdido numa qualquer cidade dessa Europa, por favor enviem de volta ao seu país a pagar no destino.
quinta-feira, 8 de março de 2012
E assim se consegue
Pois há coisas estranhas a acontecerem a estas pessoas que se dedicam ao ofício da narração de estórias.
Uma dessas foi mesmo o olhar que me foi devolvido pelo Hans quando o questionei na internacional linguagem sobre o quão sensato seria entrar dentro de uma viatura conduzida por um iraniano que nunca antes tinha visto e que, na minha visão ocidental do mundo, bem que me podia retalhar e vender à embaixada portuguesa para de mim se fazerem saborosas farinheiras.
Pois entrámos. Depois de uma condução que seria capaz de deixar o mais ousado dos concorrentes das wacky races completamente esgotado de ideias para vencer o prémio final, fomos largados na Rua Ferdosi, onde se troca dinheiro na rua tal e qual se faz com os cromos da panini à entrada da estação do Rossio.
Ainda a tremer e a temer pela minha vida, fomos convidados a sair da viatura e a seguir o tal de gordinflim do post anterior que nos introduziu numa loja onde homens gritavam com maços de notas nas mãos.
De certa maneira, senti que estava a entrar num género de mercado de acções paralelo, bem no centro de uma vida intensa que se regula por leis que em nenhum lado estão escritas.
Tendo como referência o valor de câmbio 1€ - 18000 rials que tinha visto anunciado num banco, senti que não poderia ser enganado e que aquele seria um lugar sério. Às vezes temos que repetir certas coisas para nós mesmos a fim de conseguirmos acreditar nelas.
Foi então que 2 jovens se aproximaram de mim e do Hans e nos perguntaram o que queríamos num inglês de fazer inveja ao David Beckham. Ao ser confrontado com o valor que queríamos trocar, chamou um outro amigo e convidaram-nos a sair da loja, propuseram um valor de câmbio de 1€-27000 rials.
Assenti com a cabeça, tendo ainda em mente o valor anunciado no banco e logo em seguida nos encaminhamos para um multibanco em frente da embaixada alemã, onde, entre polícias armados até aos dentes e câmaras de vigilância procedemos à troca do dinheiro, despedindo-nos entre abraços e desejos de sorte na vida.
Algo me começou a dizer que havia ali uma outra gente e um outro mundo por detrás de oficialismos e visões ocidentais.
Uma dessas foi mesmo o olhar que me foi devolvido pelo Hans quando o questionei na internacional linguagem sobre o quão sensato seria entrar dentro de uma viatura conduzida por um iraniano que nunca antes tinha visto e que, na minha visão ocidental do mundo, bem que me podia retalhar e vender à embaixada portuguesa para de mim se fazerem saborosas farinheiras.
Pois entrámos. Depois de uma condução que seria capaz de deixar o mais ousado dos concorrentes das wacky races completamente esgotado de ideias para vencer o prémio final, fomos largados na Rua Ferdosi, onde se troca dinheiro na rua tal e qual se faz com os cromos da panini à entrada da estação do Rossio.
Ainda a tremer e a temer pela minha vida, fomos convidados a sair da viatura e a seguir o tal de gordinflim do post anterior que nos introduziu numa loja onde homens gritavam com maços de notas nas mãos.
De certa maneira, senti que estava a entrar num género de mercado de acções paralelo, bem no centro de uma vida intensa que se regula por leis que em nenhum lado estão escritas.
Tendo como referência o valor de câmbio 1€ - 18000 rials que tinha visto anunciado num banco, senti que não poderia ser enganado e que aquele seria um lugar sério. Às vezes temos que repetir certas coisas para nós mesmos a fim de conseguirmos acreditar nelas.
Foi então que 2 jovens se aproximaram de mim e do Hans e nos perguntaram o que queríamos num inglês de fazer inveja ao David Beckham. Ao ser confrontado com o valor que queríamos trocar, chamou um outro amigo e convidaram-nos a sair da loja, propuseram um valor de câmbio de 1€-27000 rials.
Assenti com a cabeça, tendo ainda em mente o valor anunciado no banco e logo em seguida nos encaminhamos para um multibanco em frente da embaixada alemã, onde, entre polícias armados até aos dentes e câmaras de vigilância procedemos à troca do dinheiro, despedindo-nos entre abraços e desejos de sorte na vida.
Algo me começou a dizer que havia ali uma outra gente e um outro mundo por detrás de oficialismos e visões ocidentais.
domingo, 4 de março de 2012
De como se troca dinheiro
Os incautos iranianos acordaram-me depois de apenas ter dormido 4 horas. Desconheciam eles o facto de que não havia fúria divina que se comparasse com o meu mau humor matinal.
Não sei como, saí da cama e prontamente ignorei o pedido para me despachar.
Pedi um banho. Responderam que não dava tempo. Desapareci dentro da casa de banho.
Sei que ao incauto leitor este é um acontecimento normal e banal e que até passa despercebido, mas posso-vos garantir que mais desaparecimentos ocorrerão em posts futuros.
Foram-me buscar à casa de banho com kind requests para me despachar, o que desde logo traduzi nesta minha linguagem ocidental como: é bom que te ponhas a fresco antes que te façamos a ti o mesmo que fazemos às rameiras que cometem adultério.
Obedeci.
Fui apresentado a um dinamarquês.
Fui apresentado à responsável daquilo tudo.
Fui apresentado a um tipo qualquer que era não sei quê.
Abracei com marcado sorriso o simpático motorista que no dia anterior me tinha resgatado do aeroporto.
Fui levado ao bazaar, mergulhado no mais profundo e belo caos onde fui confrontado com dura realidade: Não tenho dinheiro e sempre que a tradução surgia com preços em Euros, todo eu duvidava de serem aqueles os preços reais.
Urgia então trocar dinheiro.
A seguir a um faustoso almoço, provi-me da companhia do dinamarquês e partimos rumo à rua Ferdosi citando os seus poemas numa clara competição intelectual apenas comparável com um Portugal Dinamarca de há uns anos quando o Figo marcou um esplendoroso golo ao Schmeichel.
E tão embrenhados estávamos nestas lides que nos perdemos.
Entrámos num Kebab e perguntámos onde podíamos trocar dinheiro.
O tipo que lá estava a trabalhar sai da loja a correr e eu pensei: já está! Vão chamar a Santa Brigada anti-estrangeiros, esquartejam-nos em 5 minutos e em breve rivalizaremos com o kebab de borrego. Mas não. Passado um bocado apareceu-nos um bonacheirão que logo franziu a cara quando lhe dissemos quanto dinheiro queríamos trocar. Fez-nos gestos para que esperássemos ali mesmo. Aha! Agora é que ele foi chamar a tal de brigada, pensei.
Não. Foi chamar um amigo que nos convidou a entrar no seu carro e...
(To be continued)
Obedeci.
Fui apresentado a um dinamarquês.
Fui apresentado à responsável daquilo tudo.
Fui apresentado a um tipo qualquer que era não sei quê.
Abracei com marcado sorriso o simpático motorista que no dia anterior me tinha resgatado do aeroporto.
Fui levado ao bazaar, mergulhado no mais profundo e belo caos onde fui confrontado com dura realidade: Não tenho dinheiro e sempre que a tradução surgia com preços em Euros, todo eu duvidava de serem aqueles os preços reais.
Urgia então trocar dinheiro.
A seguir a um faustoso almoço, provi-me da companhia do dinamarquês e partimos rumo à rua Ferdosi citando os seus poemas numa clara competição intelectual apenas comparável com um Portugal Dinamarca de há uns anos quando o Figo marcou um esplendoroso golo ao Schmeichel.
E tão embrenhados estávamos nestas lides que nos perdemos.
Entrámos num Kebab e perguntámos onde podíamos trocar dinheiro.
O tipo que lá estava a trabalhar sai da loja a correr e eu pensei: já está! Vão chamar a Santa Brigada anti-estrangeiros, esquartejam-nos em 5 minutos e em breve rivalizaremos com o kebab de borrego. Mas não. Passado um bocado apareceu-nos um bonacheirão que logo franziu a cara quando lhe dissemos quanto dinheiro queríamos trocar. Fez-nos gestos para que esperássemos ali mesmo. Aha! Agora é que ele foi chamar a tal de brigada, pensei.
Não. Foi chamar um amigo que nos convidou a entrar no seu carro e...
(To be continued)
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Arrivare
Se tive medo? Não.
Mas agradeci ter chegado são e salvo a territórios mais democráticos.
De forma curta e grossa poderia resumir assim a minha experiência iraniana.
Mas há muito mais para além disso...
Cheguei de madrugada a uma Teerão que se apresentou de trajes oficiais de neve e com um piscar de olho à primeira de muitas imagens de um Khomeini que nunca sorri pese embora tivesse tido quatro mulheres ao mesmo tempo. Talvez por isso mesmo sempre esteja tão moribundo. Mais fácil governar autoritariamente um país de 70 milhões de pessoas que aguentar 4 mulheres dentro do mesmo espaço.
Sinto pena pelo moço, é o que sinto.
Mas logo me deixei de coisas quando fui confrontado com a forma como conduziam. Não poderia eu imaginar mais bruta experiência. Se em Istambul tinha tido medo, aqui agradeci a divina protecção de Alá(1) em todas as bandeiras que vi entre o aeroporto e o meu pouso.
Mas nada disto se viria a comparar com a condução a que fui submetido no dia seguinte.
Mas isso fica para outro post de inspiração iraniana.
1- Aquele simpático símbolo no centro da bandeira do Irão representa nada mais nada menos do que Allah u Akbar, ou Deus é Grande como se diria por estas lusitanas terras.
Mas agradeci ter chegado são e salvo a territórios mais democráticos.
De forma curta e grossa poderia resumir assim a minha experiência iraniana.
Mas há muito mais para além disso...
Cheguei de madrugada a uma Teerão que se apresentou de trajes oficiais de neve e com um piscar de olho à primeira de muitas imagens de um Khomeini que nunca sorri pese embora tivesse tido quatro mulheres ao mesmo tempo. Talvez por isso mesmo sempre esteja tão moribundo. Mais fácil governar autoritariamente um país de 70 milhões de pessoas que aguentar 4 mulheres dentro do mesmo espaço.
Sinto pena pelo moço, é o que sinto.
Mas logo me deixei de coisas quando fui confrontado com a forma como conduziam. Não poderia eu imaginar mais bruta experiência. Se em Istambul tinha tido medo, aqui agradeci a divina protecção de Alá(1) em todas as bandeiras que vi entre o aeroporto e o meu pouso.
Mas nada disto se viria a comparar com a condução a que fui submetido no dia seguinte.
Mas isso fica para outro post de inspiração iraniana.
1- Aquele simpático símbolo no centro da bandeira do Irão representa nada mais nada menos do que Allah u Akbar, ou Deus é Grande como se diria por estas lusitanas terras.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Made in Asia
Quando assumi esta minha faceta estalajadeira, não pude deixar de reparar o avançado estado de racistismo em que se encontrava o anterior dono, classificando quase todos os países europeus pelos seus defeitos, capazes de colocar a discografia do Manolo Escobar entre as obras-primas da diversidade cultural dos nossos dias.
Embora já tenha comprovado que o maior defeito comum aos alemães é o de falarem alemão e o dos espanhóis, espanhol e por aí adiante, há, contudo, todo um continente que me tem vindo a levantar algumas questões a nível das suas atitudes, comportamentos e posturas assumidas por estas bandas: Ásia.
Ao início confesso que sentia sempre aquele fascínio do pobre tuga perante algo de exótico e novo, mas o tempo encarregou-se de pôr na minha cara um leve laivo de preocupação sempre que vejo surgir nas reservas um Min, um Han ou um Kim.
De forma a tornar tudo isto num exercício por deveras mais interessante, proponho que associem as nacionalidades dadas às situações descritas. Ora bem, os candidatos são
a) dois japoneses
b) vietnamitas
c) indiano
d) sul-coreana
e) duas japonesas
Situação 1:
Recebo chamada histérica sobre como a porta do hostel não abre. Tento explicar possibilidades, ao que sempre me respondem: "Come, come, come, come quick". Interrompi o meu justo descanso, peguei no carro e conduzi como louco rumo à Graça como se houvesse novo terramoto. Quando cheguei, saí do carro à la David Hasselholf e exemplifiquei que a porta se abria rodando a chave para a direita, ao que me responderam com um "Nandeeeee" em coro, fazendo inveja ao coro de Santo Amaro de Oeiras.
Situação 2:
Estando no cafofo, começa-me a cheirar a queimado. Descubro fumo na cozinha e uma caçarola com um género de arroz esturricado no fundo. Pergunto na sala se é de alguém. Há um não generalizado. Saio para o poço para perguntar se seria de algum incauto fumador. Nop. Quando regresso à cozinha, deparo com a caçarola em cima de uma placa de madeira a deixar uma catita marca queimada que ainda hoje lá está como testemunha do momento. Saio novamente para a sala e pergunto outra vez. Ninguém responde e começo a perguntar individualmente. É então que uma criatura me diz que tinha sido ela enquanto continuava a teclar desenfreadamente no facebook, encolhendo os ombros quando lhe disse que podia ter pegado fogo à cozinha. Confesso que me aguentei para não lhe dar com a caçarola na cabeça e noutras partes sensíveis.
Situação 3:
Estando na cozinha, aviso umas criaturas que o forno precisa de fósforos para ser acendido. Sorriem e acenam. Abrem o forno, põem uma pizza lá dentro e ligam o gás. Digo-lhes que já o farei. Voltam a sorrir e deixam o gás ligado, continuando de volta do forno. Aproximo-me na eminência de explosão e eis que tenho o meu acesso barricado pois eles tinham chegado primeiro ao fogão, dizem. Agarro num deles, apago o gás, deixo a cozinha respirar e explico como se faz. Sorriem e acenam.
Situação 4:
Duas alemãs chegam enojadas ao pé de mim a dizerem que não há condições para tomar banho. Chego à casa de banho e tenho dúvidas que o titanic tenha metido tanta água como a que ali vi. Peço desculpa e trato de recolher a água. No dia seguinte, encontro-me a fiscalizar a casa de banho, qual membro da ASAE. Descubro o culpado. Confronto-o e ele abana a cabeça em sinal de reconhecimento de culpa. Respiro fundo com esperança num futuro imediato mais razoável.
No dia seguinte a casa de banho tinha mais água que a nossa economia.
Situação 5:
Chegam. Pergunto se precisam de dicas sobre a cidade. "No". Ok. Vão bardamerda que eu vou ler contos sobre a morte.
No dia seguinte perguntam-me coisas sobre a cidade. Faço um sorriso ácido e respondo de forma cortês. Depois de uns bons 15 minutos a explicar mais do que promete a força humana, afasto-me deles com o sentimento de missão bem cumprida. Contudo, eles não partem rumo à cidade, mas sim rumo ao pc para confirmar no wikipedia tudo aquilo que lhes tinha acabado de dizer. Tortura seria pouco.
Quem acertar correctamente a que nacionalidade corresponde cada uma destas situações ganhará uma garrafa de saké. Ou bagaço.
Embora já tenha comprovado que o maior defeito comum aos alemães é o de falarem alemão e o dos espanhóis, espanhol e por aí adiante, há, contudo, todo um continente que me tem vindo a levantar algumas questões a nível das suas atitudes, comportamentos e posturas assumidas por estas bandas: Ásia.
Ao início confesso que sentia sempre aquele fascínio do pobre tuga perante algo de exótico e novo, mas o tempo encarregou-se de pôr na minha cara um leve laivo de preocupação sempre que vejo surgir nas reservas um Min, um Han ou um Kim.
De forma a tornar tudo isto num exercício por deveras mais interessante, proponho que associem as nacionalidades dadas às situações descritas. Ora bem, os candidatos são
a) dois japoneses
b) vietnamitas
c) indiano
d) sul-coreana
e) duas japonesas
Situação 1:
Recebo chamada histérica sobre como a porta do hostel não abre. Tento explicar possibilidades, ao que sempre me respondem: "Come, come, come, come quick". Interrompi o meu justo descanso, peguei no carro e conduzi como louco rumo à Graça como se houvesse novo terramoto. Quando cheguei, saí do carro à la David Hasselholf e exemplifiquei que a porta se abria rodando a chave para a direita, ao que me responderam com um "Nandeeeee" em coro, fazendo inveja ao coro de Santo Amaro de Oeiras.
Situação 2:
Estando no cafofo, começa-me a cheirar a queimado. Descubro fumo na cozinha e uma caçarola com um género de arroz esturricado no fundo. Pergunto na sala se é de alguém. Há um não generalizado. Saio para o poço para perguntar se seria de algum incauto fumador. Nop. Quando regresso à cozinha, deparo com a caçarola em cima de uma placa de madeira a deixar uma catita marca queimada que ainda hoje lá está como testemunha do momento. Saio novamente para a sala e pergunto outra vez. Ninguém responde e começo a perguntar individualmente. É então que uma criatura me diz que tinha sido ela enquanto continuava a teclar desenfreadamente no facebook, encolhendo os ombros quando lhe disse que podia ter pegado fogo à cozinha. Confesso que me aguentei para não lhe dar com a caçarola na cabeça e noutras partes sensíveis.
Situação 3:
Estando na cozinha, aviso umas criaturas que o forno precisa de fósforos para ser acendido. Sorriem e acenam. Abrem o forno, põem uma pizza lá dentro e ligam o gás. Digo-lhes que já o farei. Voltam a sorrir e deixam o gás ligado, continuando de volta do forno. Aproximo-me na eminência de explosão e eis que tenho o meu acesso barricado pois eles tinham chegado primeiro ao fogão, dizem. Agarro num deles, apago o gás, deixo a cozinha respirar e explico como se faz. Sorriem e acenam.
Situação 4:
Duas alemãs chegam enojadas ao pé de mim a dizerem que não há condições para tomar banho. Chego à casa de banho e tenho dúvidas que o titanic tenha metido tanta água como a que ali vi. Peço desculpa e trato de recolher a água. No dia seguinte, encontro-me a fiscalizar a casa de banho, qual membro da ASAE. Descubro o culpado. Confronto-o e ele abana a cabeça em sinal de reconhecimento de culpa. Respiro fundo com esperança num futuro imediato mais razoável.
No dia seguinte a casa de banho tinha mais água que a nossa economia.
Situação 5:
Chegam. Pergunto se precisam de dicas sobre a cidade. "No". Ok. Vão bardamerda que eu vou ler contos sobre a morte.
No dia seguinte perguntam-me coisas sobre a cidade. Faço um sorriso ácido e respondo de forma cortês. Depois de uns bons 15 minutos a explicar mais do que promete a força humana, afasto-me deles com o sentimento de missão bem cumprida. Contudo, eles não partem rumo à cidade, mas sim rumo ao pc para confirmar no wikipedia tudo aquilo que lhes tinha acabado de dizer. Tortura seria pouco.
Quem acertar correctamente a que nacionalidade corresponde cada uma destas situações ganhará uma garrafa de saké. Ou bagaço.
domingo, 15 de janeiro de 2012
De los rincones de la lectura
Al ver un espetáculo de Nicolás Buenaventura, el libro de magia se abrió aún más cuando, al final, abrió las escena a cuestiones del público. Para contestar a una hizo referencia a Oliver Sacks y a su libro El hombre que confundió a su mujer con un sombrero. Desde luego me acordé de cuando lo busqué como loco para la biblioteca donde trabajé a pedido de un lector. No lo descubrí. El éxito que había tenido en 1990 había agotado por completo todas suas ediciones y la biblioteca no tenía permiso para comprarlo en librerías de segunda mano. Terminé pedindolo a mi mejor amigo para que yo lo pudiera satisfacer el deseo del utilizador. Cuando le pregunté de que iba el libro me contestó como siempre: Porque no lo lees? Te lo recomiendo.
La verdad es que nunca lo hizo y dejé la curiosidad en un rincón más o menos oscuro de mi memória hasta que lo escuché hablando de él. Lo busqué de nuevo, ahora ya en librerías de segunda mano, pero imposible, me dijeron. Mi mejor amigo está en Estados Unidos por lo que la oscuridad volvió, poco a poco sobre el libro, hasta que, el otro día, pasaba por mercadillo de pulga, que está justo al lado de mi casa y vi a un tío poniendolo en el "escaparate". Aunque estuviera medio dormido, no lo dejé escapar y le pregunté el precio. Cuando lo miró con el típico aire de desprecio que por ahí suelen tener las personas que venden libros, de su boca salió: 1€ ó así...
Más barato que un bono de bus en Lisboa. Lo compré.
Pues ayer estaba medio liado con una traducción que me pasaron sobre agencias funerárias y resolvi empezar a leerlo a ver si conseguía "respirar" un poco. Solo terminé cuando leí su última y maravillosa frase "El profesor debe amar el deficiente que és bello y honesto vivir en un mondo más simples y puro".
A veces tenemos que agradecer a los que siguen iluminando estes rincones más o menos oscuros de nuestras mentes.
La verdad es que nunca lo hizo y dejé la curiosidad en un rincón más o menos oscuro de mi memória hasta que lo escuché hablando de él. Lo busqué de nuevo, ahora ya en librerías de segunda mano, pero imposible, me dijeron. Mi mejor amigo está en Estados Unidos por lo que la oscuridad volvió, poco a poco sobre el libro, hasta que, el otro día, pasaba por mercadillo de pulga, que está justo al lado de mi casa y vi a un tío poniendolo en el "escaparate". Aunque estuviera medio dormido, no lo dejé escapar y le pregunté el precio. Cuando lo miró con el típico aire de desprecio que por ahí suelen tener las personas que venden libros, de su boca salió: 1€ ó así...
Más barato que un bono de bus en Lisboa. Lo compré.
Pues ayer estaba medio liado con una traducción que me pasaron sobre agencias funerárias y resolvi empezar a leerlo a ver si conseguía "respirar" un poco. Solo terminé cuando leí su última y maravillosa frase "El profesor debe amar el deficiente que és bello y honesto vivir en un mondo más simples y puro".
A veces tenemos que agradecer a los que siguen iluminando estes rincones más o menos oscuros de nuestras mentes.
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